O violão feminino
Por: Miquéias Bandeira
"Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era a música em forma de mulher. A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam unmot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos." Assim se inicia a crônica Uma Mulher Chamada Guitarra, de Vinícius de Moraes.
O violão, também conhecido como guitarra, tem a figura feminina não apenas como espelho, mas também vem formando durante o último século uma parceria bastante significativa, sobretudo no Brasil. Sendo o violão, instrumento pouco valorizado pela sociedade, essa parceria seria improvável de acontecer. Quem no final do século passado olharia com bons olhos o fato de uma mulher se apresentar em público tocando violão?
Todavia, com todo o machismo da época somado à boêmia do violão, o destino colocou uma mulher para dar o ponta pé inicial nessa parceria. Segundo o professor e violonista Fábio Zanon, o primeiro chute foi dado pela cantora, compositora, pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga. Numa época em que o piano prevalecia como instrumento tocado pelas mulheres de boa família, a compositora ousou ir na contramão utilizando o violão em suas apresentações teatrais no Rio de Janeiro, legando às mulheres o pioneirismo na história da música brasileira.
No início do século XX enquanto no Brasil, o violão, marginalizado - território dos boêmios com seus acordes melodiosos soavam em seis cordas - na Espanha o violão era instrumento de fundamental importância para a cultura dos ciganos.
Mas, esse cenário começou a mudar em 1916, com a passagem do violonista paraguaio, o virtuoso Augustin Barrios. Conhecido como "o Paganini do violão", o mensageiro da raça guarani é reconhecidamente o pai da escola violonística brasileira. E foi naquele ano que aconteceu o primeiro Concerto de violão no Brasil. No ano seguinte, a violonista espanhola Josefina Robledo encantou nosso país dando início aos nossos concertos femininos... A gênesis do violão estava firmada pela habilidade e sensibilidade feminina.
Entre os anos 20 e 50, Maria Luíza Anido, violonista também espanhola, discípula do mestre Miguel Llobet, visitou o Brasil e seus diversos Concertos durante essas décadas impulsionaram vários professores brasileiros a se empenharem mais nos estudos do violão clássico.
Nos anos 60, foi a vez da argentina Monina Távora que viveu no Rio de Janeiro. Casada com o grande violonista Andrés Segóvia e professora de apenas 4 alunos, Monina, com sua "pequena" escola de interpretação, viu seu trabalho contemplado nos dois maiores duos de violão do século: os irmãos Abreu e os irmãos Assad que, por conseguinte influenciaram os maiores mestres do violão brasileiro dos anos 70 para cá.
Já era o momento de uma mulher brasileira mostrar sua competência desfilando nos palcos seu talento violonístico. Quem cumpriu com esse papel, contribuindo para a história do violão no Brasil foi a violonista Maria Lívia São Marcos. Ainda adolescente fazia concertos pelo Brasil e nos anos 60, tornou-se a primeira brasileira a fazer carreira internacional como concertista.
Nos anos 90 a paulistana Angela Muner desponta como uma das intérpretes de maior destaque no cenário violonístico brasileiro, atuando como solista e camerista.
A história do violão, aqui brevemente observada, teve como base a presença da mulher, sobretudo no violão clássico. Porém, não foi diferente no violão popular que seguiu de perto o pioneirismo feminino. Para muitos, a primeira mulher a se apresentar acompanhada de um violão foi a cantora Olga Praguer Coelho. A manauara cantou em público pela primeira vez em 1928, num programa da Rádio Clube do Brasil. Mais recentemente a história do violão foi incrementada pelo jeito performático sonoro da violonista Badi Assad.
Não tem como negar a importância da mulher no caminho trilhado pelo o violão nestes últimos 170 anos.
Mulher - Violão!!!!
A alusão feita, nesse texto, resulta da importância de sua história na sociedade e pelas atribuições do corpo, dadas a ele... Abraçado ao instrumento - mulher, o poeta também reconhece suas conquistas e direitos que lhes renderam um dia internacional adotado pela ONU em dezembro de 1977, mas sobretudo é seu encanto, sua fortaleza, um não " sei quê " que o enfeitiça e que as cordas dedilhadas do meu violao a homenageiam todos os dias.
Recife, 08 de março de 2017
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